A Balada da Harpa-Tecelã

"Filho", disse a minha mãe,
      Quando era muito jovem,
"Precisaste de roupas para vestir,
      E nem um farrapo tinha.

"Nada há em casa
      Para fazer calções pelo joelho,
Tesouras para cortar um pano,
      Nem linha para cozer pontos.

"Nada há em casa
      Só um pedaço de pão de centeio,
E uma harpa com cabeça de mulher
      Que ninguém comprará",
      E começou a chorar.

Isso foi no início do outono.
      Quando chegou o seu final,
"Filho,” disse ela, "a visão de ti
      Gela o sangue da tua mãe, -

"Pequenas omoplatas magras
      Saem através de tuas roupas!
E onde vais conseguir um casaco
      Só Deus sabe lá no céu.

"É uma sorte para mim, rapaz,
      O teu pai jazer na terra,
Não pode ver como votei
      O seu filho ao abandono!"
      E fez um estranho ruído.

Isso foi no final do outono.
      Quando chegou o inverno,
Não tinha um par de calções
      Nem nenhuma camisa.

não pude ir à escola,
      Ou brincar ao ar livre.
E todos os outros rapazes
      Cruzaram o nosso caminho.

"Filho", disse a minha mãe,
       "Vem, salta para o meu colo,
Vou aquecer os teus ossinhos
      Quando levemente dormes.

E, oh, como somos tolos
      Por meia hora ou mais,
Eu, com as pernas longas
      A baloiçar pelo chão,

Um baloiço-baloiça-baloiçando
      Por uma rima da mãe gansa!
Ah, como éramos felizes
      Por apenas meia hora!

Mas eis-me um rapaz crescido,
      Que diria o zé povinho ao ouvir
Em todo o dia a minha mãe cantar
      Para me pôr a dormir,
      De uma forma tão cretina?

Os homens dizem que o inverno
      Naquele ano foi mau;
O combustível escasseou,
      E encareceu a comida.

Um vento com cabeça de lobo
      Uivou sobre a nossa porta,
E queimámos as cadeiras
      E sentámo-nos no chão.

Tudo o que restou
      Foi a cadeira que poupámos
E a harpa com cabeça de mulher
      Que ninguém aceitaria,
      Por música ou amor de Deus.

Na véspera do Natal
      Chorei de frio,
Chorei até adormecer 
      Como uma criança de dois anos.

E na noite profunda
      Senti a minha mãe erguer-se,
O seu olhar fixava-me 
      Com amor nos seus olhos.

Vi a minha mãe sentada
      Na cadeira que restava,
Uma luz caindo nela 
      De onde não sei dizer,

Parecia ter dezanove anos,
      E nem um dia mais velha,
A harpa com cabeça de mulher
      Encostada ao ombro dela.

Os dedos delgados, deslizando
      Nas cordas altas e finas,
Estavam tecendo-tecendo-tecendo
      Coisas maravilhosas.

Múltiplos fios que brilhavam,
      De onde não podia ver,
Corriam pelas cordas da harpa
      Com a maior rapidez,

Fios de ouro sibilantes
      Pela mão da minha mãe.
E vi a teia crescer,
E expandir-se a matriz.

Teceu um casaco infantil,
      E quando já estava pronto
Posando-o sobre o chão
      Começou a tecer outro.

Teceu um manto vermelho
     Tão régio se apresentava,
"Fizeste-o para o filho de um rei,"
      Disse eu, "e não para mim."
      Mas era para mim, sabia.

Teceu um par de calções
      Mais rápido que tudo isso!
Teceu um par de botas
      E um pequeno tricórnio.

Teceu um par de luvas,
      Teceu uma exígua blusa ,
Teceu a noite inteira
      Na casa em silêncio e fria.

Cantava quando trabalhava,
      As cordas da harpa falavam;
A voz nunca falhou,
      O fio nunca quebrou.
      E quando acordei, -

Estava a minha mãe sentada
     Com a harpa sobre o ombro,
Parecia ter dezenove anos,
     E nem um dia mais velha,

Um sorriso entre os lábios,
     E uma luz sobre a cabeça,
As mãos nas cordas da harpa
     Geladamente vazias.

E a seu lado amontoadas
      E caindo dos céus eram 
As vestes do filho de um rei,
      Justamente à medida.




THE HARP-WEAVER AND OTHER POEMS  (1923)
Edna St. Vincent Millay Selected Poems
J. D. McClatchy editor | American Poets Project
The Library of America © Copyright 2003
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa 

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