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Dinosauria, Nós

Nascidos assim No meio disto Quando as caras de giz traçam sorrisos  Quando a Sra. Morte dá gargalhadas Quando os elevadores entram em colapso Quando os cenários políticos se corrompem Quando o rapaz do supermercado possui diploma universitário Quando o peixe de conserva cospe a presa oleosa Quando o sol coloca a sua máscara Somos Nascidos assim No meio disto Nestas guerras cuidadosamente loucas Na visão das janelas de fábrica quebradas de vazio Em bares onde as pessoas já não falam umas com as outras Em lutas com punhos que terminam em tiroteio e facadas Nascidos no meio disto Em hospitais tão caros que é mais barato morrer Entre advogados que cobram tanto que é mais barato alegar-se culpado  Num país onde as prisões estão cheias e os hospícios encerrados  Num lugar onde as turbas promovem tontos a ricos heróis  Nascidos no meio disto Caminhando e vivendo através disto Morrendo por causa disto Calados por causa disto Castrados Debochados ...

Prometeu

Fortemente enlaçado numa cama familiar Revirei-me toda a noite, rodando a cabeça, Agora a aurora regressa em vão, pois ainda O abutre permanece na sua quente colina Estou apaixonado como gigantes Se encantam com a estrela vespertina, E esse pássaro esbelto veio provar A intransigência do amor Ainda que, com o olho voraz semicerrado, Arranque o fígado cru das suas entranhas: Alimento, ciúme, não há possível fuga - Se a que te buscou permanecer também Robert Graves, Collected Poems 1959 , Cassel & Company Ltd, 1959. Versão Portuguesa de  ©  Luísa Vinuesa 

Vaidade

Podes assegurar-te, o Dragão não está morto Mas mais uma vez das fontes de paz Erguerá a sua fabulosa cabeça verde As flores da inocência cessarão E como uma harpa o vento rugirá E as nuvens agitarão um velo furioso “Aqui, aqui está a certeza”, juraste, “Sob esta árvore atingida por um raio Onde antes caía, agora já não cai” “Dois amantes numa casa concordam, O tecto é firme, as paredes inabaláveis, Como agora, logo deverá ser sempre” Tais profecias de alegria despertam O sapo que sonha com o passado Sob a pedra da sua lareira, a luz esquecida, Que sabe, enfim, que a certeza, Deve dissipar-se em vaidade - Não há portão, nem porta segura - Que o trovão irrompa do céu azul, Que os jardins da mente se desfaçam, Que sequem as fontes do coração Robert Graves,  Collected Poems 1959 , Cassel & Company Ltd, 1959. Versão Portuguesa de  ©  Luísa Vinuesa 

O Cavalo-Marinho

Uma vez que agora em todo o lugar público Espreitam fantasmas que assumem o teu andar e rosto, Ainda não me podes ter repudiado completamente Nem silenciado o rugido insistente do mar Faz como eu confia o teu amor inquieto (Por alguém que nunca lhe deveu menos que amor) A este hipocampo indomável, Filho do seu elemento, enroscado numa rampa, Tendo enfrentado tempestades piores do que imagina, Sob as suas costelas córneas, uma mancha vermelho-sangue Pressagia a renovação da nossa dor Querida, faz dele um grande amor e derrama Lágrimas sobre a sua cabeça taciturna e seca Robert Graves,  Collected Poems 1959 , Cassel & Company Ltd, 1959. Versão Portuguesa de  ©  Luísa Vinuesa 

O Rosto no Espelho

Olhos cinzentos e assombrados, um olhar vago e distraído De órbitas largas e irregulares; uma sobrancelha caída Um pouco sobre o olho Por causa de um fragmento de míssil ainda alojado, Superficial, como um registo tolo de uma luta de tempos antigos Nariz torto e partido - provocado por uma entrada baixa, Bochechas sulcadas, cabelos grisalhos e ásperos, esvoaçando frenéticos, Testa enrugada e alta, Papada proeminente, orelhas grandes, queixo pugilístico, Poucos dentes, lábios carnudos e avermelhados, boca ascética Paro com a navalha em punho, franzindo o sobrolho com desdém Diante do homem reflectido no espelho cuja barba exige a minha atenção, E mais uma vez pergunto-lhe por que Ainda permanece pronto, com a presunção de um rapaz, Para cortejar a rainha no seu alto pavilhão de seda Robert Graves,  Collected Poems 1959 , Cassel & Company Ltd, 1959. Versão Portuguesa de © Luísa Vinuesa 

O Regresso da Deusa

 Sob a tua Via Láctea     E a Ursa Maior lentamente - girando Os sapos rezam no bosque de amieiros Amedrontados com o dia do teu juízo,     Clamando em arrependimento O tronco que coroaram como rei     Encharcou, cambaleou e afundou, Uma coruja flutua em asas silenciosas, Água escura borbulha da nascente,     Invocam-te de cada margem Ao amanhecer aparecerás,     Uma garça magra de pernas vermelhas, Tu, que conhecem demasiado bem para temer, Lançando o teu bico como uma lança     Para os trazer de novo para casa                     Sufficiuunt                     Tecum,                     Caryatis,                     Domnia                     Quina Rober...

Deusas-Gato

Um hábito perverso das deusas-gato - Até as mais negras, negras como brasas Excepto por uma lua nova brilhando em cada peito, Com línguas cor de coral e olhos de berilo como lâmpadas, De pernas longas, andando ao ritmo de três por três em noves - Têm por hábito obstinado o de se entregarem, Em êxtases de amor verosímeis, A gatos de rua de orelhas esfarrapadas e sorrateiros Não menos abaixo da classe comum dos gatos Do que acima dela; o que fazem por despeito, Para provocar ciúmes - nem um pouco envergonhadas Por tais ninhadas de cabeças grosseiras e cor de coelho Das quais logo se alegrariam em desertar Robert Graves,  Collected Poems 1959 , Cassel & Company Ltd, 1959. Versão Portuguesa de  ©  Luísa Vinuesa

A Porta

Quando entrou de repente, Parecia que a porta nunca mais se fecharia, Nem mesmo a fechou – ela, ela – O quarto abriu-se para um mar que a invadia, Que nenhuma porta poderia impedir. Quando finalmente sorriu, inclinando a cabeça, Para se despedir de mim, Onde antes sorria, no lugar disso, Havia uma porta infinitamente a fechar-se, E as ondas recuaram. Robert Graves,  Collected Poems 1959 , Cassel & Company Ltd, 1959. Versão Portuguesa de  ©  Luísa Vinuesa

Ninguém

Ninguém, antiga malícia, ninguém, Assedia sempre com um corpo ausente Ninguém a subir a estrada, ninguém, Como um homem alto de manto escuro, ninguém Ninguém dentro da casa, ninguém, Como crianças a subir à socapa a escada, ninguém Ninguém em lado algum no jardim, ninguém, Como uma jovem encontrada a bordar, ninguém Ninguém a vir, ninguém, ainda não aqui, Incessantemente acolhido pelo ouvido desperto Até que esse ninguém consinta em morrer, Sob a sua maldição todos devem jazer - A maldição da sua inveja, da sua dor e medo, De violações e assassínios súbitos gritados na noite Robert Graves,  Collected Poems 1959 , Cassel & Company Ltd, 1959. Versão Portuguesa de  ©  Luísa Vinuesa

Palavras Proibidas

Existem algumas palavras que carregam consigo uma maldição: Vocabulários lisos, abstractos, escorregadios. Acenam como um caminho de pedras, Mas levanta-as e observa o que se contorce ou foge! Palavras proíbidas na linguagem íntima do amor - Querida, não usas qualquer uma da lista, A não ser ironicamente em defesa da verdade Para a devolver contra o abstraccionista Que está entre os seus vários domínios no meu coração, Pois não é uma criança desinformada da Natureza, Mas passou pelas escolas e conquistou a coroa de louros, Apenas para a espezinhar no chão de Apolo Robert Graves,  Collected Poems 1959 , Cassel & Company Ltd, 1959. Versão Portuguesa de  ©  Luísa Vinuesa

O Suicídio no Bosque

O suicida, longe de estar satisfeito, Fitava o próprio crânio despedaçado: Era isso o que queria dizer? Não fora seu propósito Libertar-se dos tolos e imbecis Com uma mudança de ares? De algum lado veio uma gargalhada: Estava assim no dia do casamento E no dia seguinte Não havia para onde ir, E nenhuma diversão agora havia senão ler A literatura que o vento pudesse trazer Para o bosque onde jazia o seu corpo: Uma folha de jornal desportivo de há um ano, Uma redacção escolar amarrotada Robert Graves,  Collected Poems 1959 , Cassel & Company Ltd, 1959. Versão Portuguesa de © Luísa Vinuesa  

O Laureado

Como um lagarto ao sol, embora não se acobarde Quando os homens se aproximam, esse miserável, essa coisa raivosa, Franze a testa e senta-se a rimar na sua velhice lasciva. O seu tempo e verdade não conseguiu unir aos nossos, Mas definhando por longa inércia heliotrópica Vai coxoando com os seus desusados humores. Há muito tempo, aqui viveu um poeta que morreu. Veja-se como o remorso, contraindo a sua boca, proclama Que não foi morte natural, mas suicídio. Arrogante, surdo, indigno de veneração, Procura ainda consolo nas chamas do ocidente Que cintilam a uma fria distância sobre o mar. Robert Graves,  Collected Poems 1959 , Cassel & Company Ltd, 1959. Versão Portuguesa de © Luísa Vinuesa

Fora-da-Lei

 Corujas: zurram pela noite, Morcegos passam em ziguezague. Emboscados nas sombras, fora da vista Jazem os fora-da-Lei. Deuses antigos, reduzidos a sombras, ali Nas matas húmidas espreitam, Ávidos de coisas humanas para aprisionar Em teias de escuridão. Olha para cima, ou os teus olhos se afogarão Num mar negro em movimento Entre as copas das árvores, de cabeça para baixo Segue o trilho celeste. Olha para cima, ou os teus pés se desviarão Em direcção a essa emboscada sombria, Onde as aranhas capturam as suas presas Em redes de sombra. Pois embora os credos se dissipem em pó, A fé falhe e os homens se esqueçam, Esses deuses ancestrais do medo e da luxúria Ainda se agarram à vida. Deuses antigos, quase mortos, malignos, Famintos dos seus antigos tributos, Incenso e frutos, fogo, sangue e vinho E uma impura musa. Banidos para bosques e lua doentia, Reduzidos a meros papões, Que falavam a prostrados reis Com trovões ao meio-dia. Com trovões vindos de u...

Fragmento de um Poema Perdido

Ó, o momento lúcido, quando da boca Uma palavra voa, corre imediatamente Entre amigos, ou quando um presente amoroso surpreende Como o desejo idêntico mais próximo do coração, Ou quando uma pedra, lançada em perigo súbito, Atinge a fera raivosa em cheio no focinho! Momentos que nunca… Robert Graves,  Collected Poems 1959 , Cassel & Company Ltd, 1959. Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa  

Filhos das Trevas

Incitamos os nossos pais ao beijo, Embora, perante tal, tenham hesitado - O dia não teve coragem para prosseguir Com o que a escuridão lasciva por si podia fazer Assim nascemos do seu carinho No calor da meia-noite, um de dois Esta semente nocturna não conhecia o descontentamento Com certeza, as nossas transformações ocorreram Embora existissem véus sobre o seu rosto. Com premeditação, mesmo naquele lugar confinado, Inclinamo-nos para a luz, assim, Para reinos de espaço mais vasto Será o Dia o erro primordial, esse remorso Pelas Trevas que ainda ruge sem ser sufocado? E nessa liberdade, conquistada pela fé, Apenas actos de dúvida sejam cometidos? Esses olhos que se abrem estão molhados de lágrimas - Acaso recusamos em contemplar o sol? Robert Graves,  Collected Poems 1959 , Cassel & Company Ltd, 1959. Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa

Amor Perdido

Os seus olhos estão tão vivos de tristeza, Que pode observar a erva ou a folha Crescer a cada instante; pode Ver claramente através de uma parede de sílex, Ou observar o espírito assustado a fugir Da garganta de um morto.         Consegue ouvir em dois condados diferentes, E captar as tuas palavras antes de falar. O bicho-de-conta ou o fraco clamor da larva Ressoa no seu triste ouvido; E um ruído tão subtil que desafiaria A crença: - o som da erva a beber água, A conversa das minhocas, o ruído das mandíbulas da traça A abrir buracos no tecido: O gemido das formigas que carregam Cargas gigantescas por amor à honra - Os seus tendões rangem, a sua respiração enfraquece: O zumbido das aranhas quando tecem, E os sussurros minúsculos, murmúrios, suspiros De larvas e moscas ociosas.         Este homem está tão tomado pela dor, Que vagueia como um deus ou um ladrão Por dentro e por fora, em baixo, em cima, Sem alívio, procurando...