Cinderela
Lês sempre isto:
o canalizador com doze filhos
que ganha o sorteio irlandês.
De sanitas a riquezas.
Essa história.
Ou a ama de crianças,
um docinho delicioso da Dinamarca
que seduz o coração do filho mais velho.
de fraldas à Dior.
Essa história.
Ou um leiteiro que serve aos ricos,
ovos, creme, manteiga, iogurte, leite,
o camião branco como uma ambulância
que entra no mercado imobiliário
e ganha um dinheirão.
De lacticínios a martinis ao almoço.
Ou a empregada de limpeza
que vai no autocarro que derrapa
e recolhe o suficiente do seguro.
De esfregões a Bonwit Teller.
Essa história.
Era uma vez
a mulher de um homem rico que jazia no seu leito de morte,
e disse a sua filha Cinderela:
Seja devota. Seja boazinha. E então sorrirei
descendo do céu na fenda de uma nuvem.
O homem desposou outra mulher que tinha
duas filhas, suficientemente bonitas com
corações como um jogo de cartas a dinheiro.
Cinderela era a sua empregada.
Dormia junto à lareira com fuligem
e andava por aí parecendo Al Jolson.
O pai trouxe presentes da cidade,
jóias e vestidos para as outras mulheres
e um ramo de árvore para Cinderela.
Plantou-o no túmulo da sua mãe e o ramo
cresceu até uma árvore onde pousava uma pomba branca.
Sempre que ela desejava alguma coisa
a pomba deixava-a cair como um ovo no chão.
O pássaro é importante, meus queridos, prestem-lhe atenção.
Em seguida veio o baile, como todos sabem.
Era um mercado de casamento.
O príncipe estava a escolher uma mulher.
Todas, excepto Cinderela, preparavam-se
e arrajavam-se para o baile.
Cinderela implorou para ir também.
A madrasta atirou um prato de lentilhas
para as cinzas e disse: apanha-as todas
numa hora, então irás.
A pomba branca trouxe as suas amigas;
todas as asas quentes do seu país natal vieram,
e recolheram as lentilhas num instante.
Não, Cinderela, disse a madrasta,
não tens roupas, não podes dançar.
É assim com as madrastas.
Cinderela foi para a árvore no túmulo
e gritou como um cantor gospel:
Mamã! Mamã! Minha pomba,
manda-me para o baile do príncipe!
O pássaro deixou cair um vestido dourado
e delicados sapatos.
De certo um grande fardo para um simples pássaro.
E assim foi. O que não é nenhuma surpresa.
A madrasta e irmãs não a reconheceram
sem o rosto coberto de cinzas
e o príncipe agarrou-a pela mão
e dançou com ela o dia inteiro.
Quando a noite chegou, pensou que seria melhor
ir para casa. O príncipe levou-a a casa
mas ela desapareceu no pombal
e embora o príncipe pegasse num machado e o rebentasse,
ela já tinha partido. De volta às suas cinzas.
Esses eventos repetiram-se por três dias.
Contudo no terceiro dia, o príncipe
cobriu os degraus do palácio com cera de sapateiro
e colou nele o sapato dourado de Cinderela.
Agora iria saber em quem o sapato se ajustava
e encontrar para sempre a sua invulgar dançarina.
Foi a casa delas e as duas irmãs
ficaram encantados porque tinham lindos pés.
A mais velha entrou numa sala para experimentar o sapato
mas o dedo grande não entrava, então cortou-o
e colocou o sapato.
O príncipe ia partir com ela quando a pomba branca
lhe disse para olhar para o sangue que jorrava.
É assim com as amputações.
Não curam simples como um desejo.
A outra irmã cortou o calcanhar
mas o sangue falou por si mesmo.
O príncipe estava a ficar cansado.
Começou a sentir-se como um vendedor de sapatos.
Mas fez uma última tentativa.
Desta vez a Cinderela entrou no sapato
como uma carta de amor no seu envelope.
Na cerimónia de casamento
as duas irmãs vieram com lisonjas
e a pomba branca bicou nos seus olhos.
Dois pontos ocos foram deixados
como colheres de sopa.
Cinderela e o príncipe
viveram, dizem, felizes para sempre,
como duas bonecas numa caixa de museu
nunca incomodadas por fraldas ou poeira,
nunca discutindo sobre o tempo de um ovo,
nunca contando a mesma história duas vezes,
nunca tendo o excesso de peso da meia-idade,
os seus queridos sorrisos colados por toda a eternidade.
Os habituais Gémeos Bobbsey.
Essa história.
The Complete Poems | Anne Sexton
Prefácio de Maxine Kumin
Houghton Mifflin Company Boston, 1981.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa