Demónio
Um jovem tem medo de seu demónio e às vezes coloca a mão sobre a boca dele...
D. H. Lawrence
Mencionei o meu demónio a um amigo
e o amigo nadou em óleo até mim
e gorduroso e enigmático
disse-me,
"Estou a pensar pendurá-lo num gancho.
Já o penhorei anos atrás."
Quem o compraria?
O demónio penhorado,
Amarelecido com o esquecimento
e pendurado pela garganta?
Tire-o do gancho, meu amigo,
mas cuidado com a dor
que vai voar da sua boca como um pássaro.
O meu demónio,
frequentemente despe-se,
frequentemente trago um crucifixo,
frequentemente deito à água uma margarida morta
frequentemente é a criança que dei à luz
e depois abortei, sem nome, sem nome...
sem terra.
Ó demónio interior,
tenho medo e raramente levo a mão
à boca e cozo-a
tapando-te, sufocando-te
longe dos olhos do voyeur público
das teclas da minha máquina de escrever.
Se deveria penhorar-te,
que ouro valerias,
que centavos, nadando em beijos de cobre,
que ave rumando ao perecer?
Não.
Não.
Aceito-te,
vem com os mortos que povoam os meus sonhos,
que andam por toda a secretária
(como em minha Mãe, o cancro florescendo
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valsando com o seu fantasma de papel de seda)
os mortos, que dão doces aos meus diabetes,
que dão parafusos para a apreensão de rosas
que às vezes voam dentro e fora de mim.
Sim.
Sim.
Aceito-te, demónio.
Não vou fechar a tua boca.
Se for homem que amo, seja maçã carregada e suja,
se for mulher que amo, seja doente até ao sangue
e gases açucarados e galhos tombados.
Demónio avança,
chamo ainda que seja por Deus
de pé como uma chacina,
que me quer comer,
começando nos lábios e na língua.
E querendo deslizar em seus despojos,
tomo o pão e o vinho,
e o demónio peida-se e ri
por deixar escapar Deus pl'a boca fora,
mulher anónima
em altar anónimo.
The Complete Poems | Anne Sexton
Prefácio de Maxine Kumin
Houghton Mifflin Company Boston, 1981.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa.