Fausto e Eu
Fui à ópera e Deus não estava lá.
Nessa época fazia a minha aprendizagem.
As vozes estavam cheias como taças; em pleno ar
peguei-lhes e devolvi-as. Uma forma de adoração.
Nesses momentos vazios quando Nosso Senhor
dorme,
possuo as vozes. Um grito que é sempre meu.
Fui às galerias e Deus não estava lá,
apenas a Mãe Roulin e o seu o bébé, um velho bébé,
o rosto forrado de preto e com um olhar estranho
em seus olhos negros, negros. Que pareciam
caçar-me.
Foi violento estar na galeria van Gogh
quando os corvos no campo de trigo iniciaram
o último voo.
Três estradas levaram a essa morte. Todas eram cegas.
O céu tinha a presença de mil olhos azuis
e o trigo debatia-se. O trigo não era amável.
Os corvos sobem tão prontamente quanto as mentiras de um velho.
Os crimes, meu Holandês, que esperam em todos nós,
rastejam para fora do longo mar antes da queda.
Fui à livraria e Deus não estava lá.
O Doutor Fausto estava vestido de azul bébé com
um cão Knopf pintado
nas costas. Cansado e esfarrapado
quanto necessário. O arqui-enganador e eu tivemos um diálogo.
A Debbie e eu, o próprio Pai das Mentiras,
recebeu a Eucaristia, por assim dizer, da estante.
Fiz um pacto e meio nesse mesmo dia
e roubei o Livro de Deus durante um caso de amor,
o próprio Gideão para os devotos vendedores que oram.
O Cântico de Salomão sublinhado anteriormente por alguns casais.
O resto das palavras tornou-se madeira em minhas mãos.
Não sou imortal. Fausto e eu somos dois falhados.
The Complete Poems | Anne Sexton
Prefácio de Maxine Kumin
Houghton Mifflin Company Boston, 1981.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa