Lamento

Alguém está morto.
Até as árvores o sabem,
essas pobres bailarinas que vêm lascivamente,
com lenços verde-ervilha e hastes na coluna.
Penso que...
penso que poderia ter parado,
se tivesse sido tão firme como uma enfermeira
ou notasse no pescoço do motorista
como enganou as luzes da cidade;
ou no final da tarde,
se segurasse o guardanapo sobre a boca.
Penso que poderia...
se tivesse sido diferente, ou sábia, ou calma,
Penso que poderia ter enfeitiçado a mesa,
o prato manchado ou a mão do comerciante.
Mas está feito.
Está tudo esgotado.
Não há dúvida sobre as árvores
espalhando os seus finos pés na relva seca.
Um ganso do Canadá sobe alto,
espalhado como uma camisa de camurça cinza,
buzinando o nariz no vento de Março.
Na entrada um gato calmamente respira 
no seu pêlo azul aguado.
Acabaram-se os pratos da ceia e o sol
desabituado a qualquer outra coisa
mergulha a pique até ao fim.




The Complete Poems | Anne Sexton
Prefácio de Maxine Kumin
Houghton Mifflin Company Boston, 1981.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa 

Outros poemas

Memorando

Por Minha Própria Conta

Além de um tempo belicoso, trovejando

O Gueto

Dinosauria, Nós

Barba Azul

Insónia

Num Poema

Acordado, deitei-me nos braços do meu calor e ouvi