Os Anjos Caídos
"Quem são eles"
"Anjos caídos que não eram bons o suficiente para serem salvos,
nem o suficiente para se perderem", dizem os camponeses.
Vêm para a minha branca
folha de papel e deixam uma mancha de Rorschach.
Não fazem isso por serem maus,
Fazem-no para me dar o sinal
de que me querem, como Aubrey Beardsley disse uma vez,
para me fazer andar à volta até que algo venha.
Desajeitada como sou,
Assim faço.
Pois sou como eles –
salvos e perdidos,
caindo para baixo como Humpty Dumpty
fora do alfabeto.
Todas as manhãs empurro-os para fora da minha cama
e quando entram na salada
rolando nela como cães,
escolho um deles
do modo que a minha filha
escolhe as anchovas.
Em Maio dançam nos junquilhos,
esgotando os dedos dos pés,
rindo como peixes.
Em Novembro,
o mês terrível,
sugam a infância das bagas
e tornam-nas azedas e intragáveis.
No entanto, fazem-me companhia.
Agitam a vida.
Transmitem a sua magia
como Sortidos Salva-Vidas.
Acompanham-me ao dentista
e protejem-me da broca.
Ao mesmo tempo,
vão para a aula comigo
e mentem as meus alunos.
Ó anjo caído,
companheiro dentro de mim,
sussurra algo sagrado
antes de me beliscares
na sepultura.
The Complete Poems | Anne Sexton
Prefácio de Maxine Kumin
Houghton Mifflin Company Boston, 1981.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa