Prisioneiros

É estranho que queira
ter a visão do teu rosto -
tivemos tanto:
posso passar a todo momento,
permanece junto ao portão,
não fales -
alcança se puderes, com o rosto
de perfil a passagem
para a luz.

O Destino-Deus faz disso um símbolo,
sinal de que não somos esquecidos,
perdidos no tumulto,
prestes a ser esmagados,
queimados ou apagados
de morte súbita na melhor hipótese.

O lanceiro que isso provoca
vai pedir-te a fivela de ouro
que usas debaixo do casaco.
Dei tudo o que me restava.

Encosta-te junto ao portão,
em breve o ferrolho rangerá
e teus míseros companheiros
serão uma multidão à entrada -
sê o primeiro no portão.

Ah amado, não fales.
Escrevo ainda com pressa -
não fales,
ainda podes ser libertado.

Estou feliz quanto baste para partir
embora nunca tenha gozado a vida
como nestas últimas semanas.

É uma vida estranha,
moldada a fogo e letras
no sobrado da prisão.
Se olhar para cima
está escrita nas paredes,
desenhada no chão,
estampada na
inclinação do telhado.

sou inábil-inábil -
ontem à noite se o guarda
tivesse deixado o portão aberto
não me teria aventurado a fugir,
mas o pensamento dá-me força
agora.

Enquanto atravesso o corredor
vendo rostos desesperados em cada cela,
os teus olhos e os meus podem tocar-se. 

Estás sujo, despenteado,
mas rezo por um relance do teu rosto -
por que quero isso?
Eu, que te vi no banquete
cada flor da tua grinalda de jacinto
branco roçando em teu cabelo.

Por que quero isso,
quando ontem à noite
no sono me assustaste?
De pé contra a rocha escura,
agarraste num bastão antigo.

Tantas noites
me distraíste do terror.
Uma vez ergueste uma flor de lança.
Lembro como te baixaste para
para a colher -
e arderam, a folha e o broto
e os fios, amarelos, amarelos -
puros arderam até ficarem 
vermelho-púrpura no copo.

Quando passo pela porta da tua cela
não fales.

Estava na primeira linha da fila -
podem ter esquecido que tentaste proteger-me
no momento em que os cavaleiros passaram.




Sea Garden (1916)
Collected Poems (1925)
H. D. Collected Poems 1912-1944
Edição de Louis L. Martz
New Directions Paperbook 661, 1986.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa 

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