Os Sumo-Sacerdotes dos telescópios e ciclotrões
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Ode a Terminus
Os Sumo-Sacerdotes dos telescópios e ciclotrões
continuam ditando augúrios sobre eventos
em escalas gigantescas ou anãs
despercebidas de nossos nativos sentidos,
descobertas que, expressas em elegantes
eufemismos de álgebra, parecem inocentes,
quase inofensivas, mas, quando traduzidas
na antropomórfica e vulgar
linguagem, não serão motivo de hilaridade
para jardineiros ou donas de casa: se as galáxias
dispararem como turbas em pânico, se mesões
se amotinarem como peixes no frenesim da
comida,
tudo isso soa em demasia a História Política
para elevar a moral civil, demasiado simbólicos
os crimes e greves e manifestações que nos
devem alegrar com o café da manhã.
Quão banais, porém, os nossos medos ao lado do milagre
que estamos aqui para tremer, que qualquer Coisinha
tão viciada em violência letal
deveria ter de algum modo secreto um plácido
trunfo exactamente com os ingredientes certos
para começar e amar a Vida, essa celestial
aberração sobre cuja gestão teremos que
prestar contas no Juízo Final, a nossa Terra-
Média, onde o Pai-Sol sobre todas as aparências
se move dia a dia de oriente a ocidente,
e a sua luz é sentida como uma presença
amiga não um bombardeamento fotónico,
onde todos os visíveis têm um esquema
definido que seguem, e sem dúvida, estão
em repouso ou em movimento, onde os amantes
se reconhecem um ao outro à superfície,
onde para todas as espécies, excepto as faladoras
receberam o nicho e a dieta que
as moldaram. Isso, não importa o que a micro-
biologia possa pensar, é o mundo em que
realmente vivemos, isso salva a nossa sanidade,
que sabe muito bem como a mente mais
erudita no escuro se comporta, sem que o
que a rodeia seja chamado a interpretar,
como, descartando ritmo, pontuação, metáfora,
mergulha num patético monólogo,
demasiado literal para notar uma piada ou
distinguir um pénis de um lápis.
Vénus e Marte são poderes ademais naturais
para temperar a nossa extravagante extravagância:
Tu, sozinho, Terminus, o Mentor.
podes ensinar-nos a alterar os nossos gestos.
Deus das paredes, portas e discrição, vingança
que alcança o sacrílego tecnocrata,
Bendita é a Cidade que te agradece
por nos dar jogos, gramática e métricas.
Pela graça de quem, cada reunião também
de dois ou três em amizade confiante
repete a maravilha pentecostal, em que
cada um tem no outro o seu certo tradutor.
Neste mundo que a nossa colossal imodéstia
saqueou e envenenou, é possível
Que ainda nos possas salvar, a esses que
aprenderam: que os cientistas, para serem
verdadeiros,
devem lembrar-nos de tomar tudo o que dizem como
uma fraca história, que abominados nos Céus são todos
os poetas auto-proclamados que, para impressionar
o público, pronunciam alguma sonante mentira.
Maio de 1968
W. H. Auden | Selected Poems, New Version
Editado por Edward Mendelsen
Vintage Books, Random House, 1979.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa