Amanhecer
1
Uma criança acordando num quarto escuro,
grita devolve o meu pato, devolve o meu pato
numa língua que ninguém pouco entende -
Não existe pato.
Mas o cachorro, forrado de pelúcia branca -
o cachorro está ali no berço a seu lado.
Anos e anos - Tanto é o tempo que passa.
Tudo num sonho. E o pato -
ninguém sabe o que lhe aconteceu.
2
Acabaram de se conhecer, agora
dormem perto de uma janela aberta.
Em parte para acordá-los, para os assegurar
de que o que recordam da noite é correcto,
a luz necessita agora de entrar na sala,
também para lhes mostrar o contexto em que aconteceu:
meias semi escondidas sob um tapete sujo,
colcha decorada com folhas verdes -
a luz do sol especificando estes,
e não outros objetos,
estabelecendo limites, seguro de si, não arbitrário,
mas demorando, descrevendo
cada objecto em detalhe,
fastidioso, como uma composição em Inglês,
até um pouco de sangue nos lençóis -
3
Mais tarde, separam-se durante o dia.
Mais tarde ainda, numa mesa, no mercado,
o gerente está insatisfeito com os números,
as bagas mofadas sob a camada superior -
de modo a que alguém se retire do mundo
mesmo que alguém continue a agir nele -
Regressas a casa, é quando reparas no mofo.
Tarde demais, em outras palavras.
Como se o sol te cegasse por um momento.
Louise Glück poems | Poemhunter.com
The World's Poetry Archive, 2004.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa