Amanhecer



Uma criança acordando num quarto escuro,
grita devolve o meu pato, devolve o meu pato  

numa língua que ninguém pouco entende - 

Não existe pato. 

Mas o cachorro, forrado de pelúcia branca -
o cachorro está ali no berço a seu lado.
Anos e anos - Tanto é o tempo que passa.
Tudo num sonho. E o pato -
ninguém sabe o que lhe aconteceu.



Acabaram de se conhecer, agora
dormem perto de uma janela aberta. 

Em parte para acordá-los, para os assegurar 
de que o que recordam da noite é correcto,
a luz necessita agora de entrar na sala, 

também para lhes mostrar o contexto em que aconteceu:
meias semi escondidas sob um tapete sujo,
colcha decorada com folhas verdes - 

a luz do sol especificando estes,
e não outros objetos,
estabelecendo limites, seguro de si, não arbitrário,
 
mas demorando, descrevendo
cada objecto em detalhe,
fastidioso, como uma composição em Inglês,
até um pouco de sangue nos lençóis -
  


Mais tarde, separam-se durante o dia.
Mais tarde ainda, numa mesa, no mercado,
o gerente está insatisfeito com os números,
as bagas mofadas sob a camada superior - 

de modo a que alguém se retire do mundo
mesmo que alguém continue a agir nele - 

Regressas a casa, é quando reparas no mofo.
Tarde demais, em outras palavras. 

Como se o sol te cegasse por um momento.




Louise Glück poems | Poemhunter.com 
The World's Poetry Archive, 2004.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa 

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