Canção de Embalar
A minha mãe é especialista numa coisa:
enviar pessoas que ama para o outro mundo.
Os pequeninos, os bebés - esses
embala, sussurrando ou cantando baixinho. Não posso dizer
o que fez pelo meu pai;
seja o que for, tenho a certeza de que estava certo.
Na verdade é a mesma coisa, preparar um pessoa para dormir, para morrer. As canções de embalar - todos dizem
não tenhas medo, é assim que parafraseiam
o batimento cardíaco da mãe.
Assim, os vivos lentamente se acalmam;
Somente são os moribundos que não podem,
que recusam.
Os moribundos são como cumes, como
giroscópios -
rodam tão rapidamente que parecem estar imóveis.
Depois, separam-se: nos braços da minha mãe,
a minha irmã era uma nuvem de átomos, de partículas - essa é a diferença.
Quando uma criança dorme, está ainda inteira.
A minha mãe viu a morte; não fala sobre a integridade da alma.
Segurou uma criança, um homem velho, e em comparação, a verde escuridão cresceu
sólida em redor deles, mudando para a terra.
A alma é como toda a matéria:
por que ficar intacta, ser fiél à sua única forma,
quando poderia ser livre?
Louise Glück poems | Poemhunter.com
The World's Poetry Archive, 2004.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa