Música Celestial

Tenho uma amiga que ainda acredita no céu.
Não é estúpida, mas com tudo que o sabe, fala literalmente com Deus.
Pensa que alguém escuta no céu.
Na terra é excepcionalmente competente.
Corajosa também, capaz de enfrentar o desagradável. 

Encontrámos uma lagarta a morrer na terra, formigas gananciosas rastejavam sobre ela.
Fico sempre comovida com o infortúnio, sempre ansiosa por defender a vitalidade
Mas também tímida, rápida a fechar os olhos.
Ainda que a minha amiga fosse capaz de assistir, e deixar o momento acontecer 

De acordo com a natureza. Por minha causa interveio
Removendo algumas formigas da coisa rasgada e colocando-a no chão
Do outro lado da estrada. 

A minha amiga diz que fechei os olhos para Deus, que nada mais explica
A minha aversão à realidade. Diz que sou como a criança que
Enterra a cabeça no travesseiro
Para não ver, a criança que diz a si própria que
Essa luz causa tristeza - 

A minha amiga é como a mãe. Paciente, incentivando-me 

A despertar em mim um adulto como ela, alguém corajoso - 

Em meus sonhos, a minha amiga censura-me. Caminhamos
Pela mesma estrada, só que agora é inverno;
Diz-me que quando amas o mundo, ouves a música celestial:
Olha para cima, diz ela. Quando olho, nada vejo.
Apenas nuvens, neve, uma presença branca nas árvores
Como noivas saltando em grande altura -
Então temo por ela; vejo-a 
E pego numa rede lançada deliberadamente na terra - 

Na verdade, sentamos-nos à beira da estrada, vendo o pôr do sol;
De vez em quando, o silêncio é penetrado pelo canto de um pássaro.
É neste momento que tentamos explicar alguma coisa, o facto
De estarmos bem com a morte, com a solidão.
A minha amiga desenha um círculo na terra;
dentro, não se move a lagarta.
Tenta sempre fazer algo inteiro, algo bonito, uma imagem
Capaz de viver longe dela.
Estamos calmas. É tranquilo estar aqui sentadas, sem falar, A composição
Fixa, a estrada vai ficando repentinamente escura, o ar
Vai esfriar, aqui e ali as pedras brilham, cintilam -
É essa quietude que nós duas amamos.
O amor pela forma é um amor por tudo o que finda.




Louise Glück poems | Poemhunter.com 
The World's Poetry Archive, 2004.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa 

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