O Copo Vazio
Pedi muito; recebi pouco, recebi
quase nada.
E no intervalo? Alguns guarda-chuvas abertos dentro de casa.
Um par de sapatos por engano na mesa da cozinha.
Ó errado, errado - era a minha natureza. Era
de coração duro, remoto. Era
egoísta, rígida até ao ponto de tirania.
Mas fui sempre essa pessoa, mesmo na primeira infância.
Pequena, de cabelos escuros, temida pelas outras crianças.
Nunca mudei. Dentro do copo, a abstracta
maré da fortuna mudou
de alto a baixo durante a noite.
Foi o mar? Respondendo, talvez,
à força celestial? Para estar segura,
Rezei. Tentei ser melhor pessoa.
Cedo pareceu que o que começou como terror
e amadureceu para narcisismo moral
pode ter-se transformado de facto em
crescimento humano real. Talvez seja
o que os amigos queriam dizer, segurando a minha mão,
dizendo-me que entenderam
o abuso, a merda incrível que aceitei,
sugerindo (pensei então) que estava um pouco doente por
dar tanto por tão pouco.
Considerando que queriam dizer que era boa, (apertando intensamente a minha mão) -
uma boa amiga e pessoa, não uma criatura
patética.
Nunca fui patética! Estava escrito em letras grandes,
como uma rainha ou santa.
Bem, tudo isso é uma conjectura interessante.
E ocorre-me que o fundamental é acreditar
no esforço, acreditar que algum bem virá de simplesmente tentar,
um bem completamente imaculado pelo impulso inicial corrupto
para persuadir ou seduzir -
O que somos sem isso?
Ás voltas no universo escuro,
sozinhos, com medo, incapazes de influenciar o destino -
O que realmente temos?
Infelizes truques com escadas e sapatos,
truques com sal, tentativas repetidas impuramente motivadas
para construir o caráter.
O que temos para apaziguar as grandes forças?
E penso que no fim era essa a questão
que destruiu Agamenon, ali na praia,
os navios Gregos a postos, o mar
invisível além do porto sereno, o futuro
letal, instável: era um louco, pensar que
o poderia controlar. Deveria ter dito:
Nada tenho, estou à sua mercê.
Louise Glück poems | Poemhunter.com
The World's Poetry Archive, 2004.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa