Parábola dos Reféns

Os Gregos estão sentados na praia
imaginando o que fazer quando a guerra acabar. Ninguém
deseja regressar a casa 
para aquela ilha óssea; todos querem um pouco mais
do que há em Tróia, mais
vida no limite, aquela sensação de cada dia 
repleto de surpresas. Mas como dizê-lo
aos que estão em casa e para quem
lutar numa guerra é uma plausível
desculpa para a ausência, enquanto que
explorar cada capacidade de distracção 
não o é. Bem, isso pode ser encarado
mais tarde; esses
são homens de acção, prontos para deixar 
a visão para as mulheres e as crianças.
Caminhando além do sol quente, o prazer
por uma nova força em seus antebraços, que parecem
mais dourados do que em casa, alguns
começam a sentir um pouco a falta das suas famílias,
sentir a falta das suas mulheres, querer ver
se a guerra os envelheceu. E alguns ficam
um pouco inquietos: e se a guerra
é apenas uma versão masculina de fantasiar,
um jogo planeado para evitar
questões espirituais profundas? Ah,
mas não foi só a guerra. O mundo havia
começado
a chamá-los, uma ópera iniciada com acordes altos de guerra
e terminando com a ária flutuante
das sereias.
Aí na praia, discutindo os vários
itinerários para chegar a casa, ninguém acreditou
poder levar dez anos para voltar a Ítaca;
ninguém previu aquela década de dilemas insolúveis - ó, inquestionável 
aflição do coração humano: como dividir
a beleza do mundo em amores
aceitáveis e inaceitáveis! Nas margens de Tróia,
como poderiam os Gregos saber
que já eram reféns: quem uma vez
atrasa a jornada é
já encantado; como poderiam saber
que do seu pequeno número
alguns seriam para sempre cativos dos sonhos de prazer,
alguns do sono, outros da música?




Louise Glück poems | Poemhunter.com 
The World's Poetry Archive, 2004.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa 

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