Posfácio

Ao ler o que acabei de escrever, agora acredito
Que parei precipitadamente, de tal modo que a minha história parece ter sido
ligeiramente distorcida, terminando, como aconteceu, não abruptamente
mas com uma espécie de névoa artificial do tipo
pulverizado em palcos para permitir mudanças de difíceis cenários. 

Por que parei? Será que algum instinto
discerniu uma forma, o artista em mim
intervindo para parar o tráfego, por assim dizer? 

Uma forma. Ou o destino, como dizem os poetas,
intuído naquelas poucas horas atrás - 

Assim alguma vez terei pensado.
E ainda assim não gosto do termo
que me parece uma muleta, uma fase,
a adolescência da mente, talvez - 

Ainda assim, foi um termo que eu mesma usei,
freqüentemente para explicar as minhas falhas.
Destino, destino, cujos desígnios e avisos
agora me parecem simplesmente
simetrias locais, metonímicas
bugigangas dentro de uma imensa confusão - 

Caos foi o que vi.
O pincel congelou - não conseguia pintá-lo. 

Escuridão, silêncio: era essa a sensação. 

Como chamar-lhe então?
correspondendo, acreditava,
à arvore que confrontou os meus pais, 

mas enquanto foram forçados
a enfrentar o obstáculo,
Recuei ou fugi - 

A névoa cobriu o palco (a minha vida).
ia e vinha, os trajes foram trocados,
o meu pincel moveu-se de um lado para o outro
longe da tela,
lado a lado, como um limpador de pára-brisa. 

Certamente, este era o deserto, a noite escura.
(Na verdade, uma rua movimentada em Londres,
os turistas agitando os seus mapas coloridos.) 

Alguém diz  uma palavra: eu.
Fora deste fluxo
as grandes formas - 

Respirei fundo. E veio até mim
a pessoa que respirou
não era a pessoa da minha história, a sua mão infantil
que segurava com confiança o giz de cera - 

Terei sido essa pessoa? Uma criança mas também
um explorador para quem o caminho fica subitamente claro, para quem
a vegetação se aparta - 

E além, não mais protegido da vista, essa exaltada
solidão que experimentou Kant talvez
em seu caminho para as pontes -
(Partilhamos o aniversário.) 

Lá fora, as ruas festivas
foram amarrados, no Janeiro tardio, com exaustas luzes de Natal.
Uma mulher encostada ao ombro de seu amante
cantando Jacques Brel em seu frágil soprano - 

Bravo! a porta está fechada.
Agora nada escapa, nada entra - 

Não me movi. Senti o deserto  
estendendo à frente, estendendo (parece agora)
por todos os lados, mudando enquanto falo,
 
de modo a estar constantemente
cara a cara com o vazio, esse
enteado do sublime,
 
que, ao que parece,
tem sido o meu sujeito e meio. 

Que teria dito o meu gémeo, se os meus pensamentos o tivessem
alcançado?  

Talvez tivesse dito que
no meu caso não havia obstáculo (por uma questão de argumento)
e depois disso teria sido
remetida à religião, o cemitério onde
as questões de fé são respondidas. 

A névoa havia-se dissipado. As telas vazias
foram voltadas contra a parede. 

O gatinho morreu (assim dizia a música). 

Devo reviver da morte, o espírito interroga
E o sol afirma.
E o deserto responde
a tua voz é areia espalhada pelo vento.




Louise Glück poems | Poemhunter.com 
The World's Poetry Archive, 2004.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa 


 

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