Uma Fantasia

Vou dizer-te uma coisa: todos os dias
morrem pessoas. E é o começo apenas.
Todos os dias, nas casas funerárias, nascem novas viúvas,
novos órfãos. Sentam-se com as mãos cruzadas,
tentando decidir sobre essa nova vida. 

Depois, estão no cemitério, alguns deles
pela primeira vez. Têm medo de chorar,
às vezes de não chorar. Alguém inclina-se,
diz-lhes o que fazer a seguir, o que pode significar
dizer algumas palavras, às vezes
atirar terra sobre a campa aberta. 

E depois, todas as pessoas voltam para a casa,
que de repente está cheia de visitantes.
A viúva senta-se majestosamente no sofá,
as pessoas fazem fila para se aproximar dela,
às vezes pegam-lhe na mão, às vezes dão-lhe
um abraço,
Tem sempre alguma coisa para dizer a todos,
obrigada, obrigada por terem vindo. 

Em seu coração, deseja que se vão embora.
Deseja regressar ao cemitério,
de volta à enfermaria, ao hospital. Sabe que
não é possível. Mas é a sua única esperança,
o desejo de voltar atrás. E só um pouco,
não tanto como o casamento, o primeiro beijo.




Louise Glück poems | Poemhunter.com 
The World's Poetry Archive, 2004.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa 

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