Vita Nova

Salvaste-me, deverias lembrar-te de mim. 

A primavera do ano;  jovens homens comprando
bilhetes para as balsas.
Riso, porque o ar está cheio de flores de macieira. 

Quando acordei, apercebi-me de que era capaz do mesmo sentimento. 

Lembro-me de sons assim na minha infância,
risos sem motivo, simplesmente porque 
o mundo é belo,
algo de parecido. 

Lugano. Mesas sob as macieiras.
Marinheiros erguendo e baixando as bandeiras coloridas.
E na beira do lago, um jovem lança o seu chapéu à água;
talvez a sua amada o tenha aceitado. 

Cruciais
sons ou gestos como
uma trilha definida antes dos assuntos maiores 

agora inutilizados, enterrados. 

Ilhas à distância. A minha mãe
segurando um prato de bolinhos - 

tanto quanto me lembro, não mudou
em nenhum detalhe, o momento
vivido, intacto, nunca tendo sido
exposto à luz, de modo que acordei exultante, na minha idade
faminta pela vida, totalmente confiante - 

Perto das mesas, manchas de relva nova, o
verde pálido
remendado no terreno escuro existente. 

A primavera de certo regressou a mim, desta vez
não como amante, mas mensageiro da morte, mas ainda,
ainda é primavera, ainda significou ternura.




Louise Glück poems | Poemhunter.com 
The World's Poetry Archive, 2004.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa 

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