I. Prima
Simultaneamente, tão silenciosamente,
Espontaneamente, de súbito
Tal como, na ostentação do amanhecer,
Voam abertos os gentis portões do corpo
Para o seu mundo além, os portões da mente,
O portão de chifre e o portão de marfim
Balançam, fechados balançam, instantaneamente
Acalmam a sua busca nocturna
De sua fronde rebelde, mal-favorecida,
Mal-humorada e de segunda categoria,
Desprivilegiada, viúva e órfã
Por um erro histórico:
Lembrado das sombras para ser um ser vidente,
Da ausência para estar em exibição,
Sem nome ou história eu desperto
Entre o meu corpo e o dia.
Santo esse momento, totalmente certo,
Como, em completa obediência
Ao clamor lacónico da luz, próximo
Como um lençol, próximo como uma parede,
Lá fora como o equilíbrio de pedra de uma montanha,
O mundo está presente, ao redor,
E eu sei que estou, aqui, não sozinho
Mas com um mundo e regozijo
Despreocupado, pois a vontade ainda tem que reivindicar
Este braço adjacente como meu,
A memória para me nomear, retomar
A sua rotina de culpa e louvor
E sorrindo para mim é este instante quando
O dia ainda está intacto, e eu
O Adão sem pecado em nosso começo,
O Adão ainda anterior a qualquer acto.
Eu respiro; claro que isto é desejar
Não importa o quê, ser sábio,
Ser diferente, morrer e o custo,
Não importa como, é o Paraíso
Perdido, claro, e eu a dever uma morte:
A crista ansiosa, o mar estável,
Os telhados planos da vila dos pescadores
Ainda a dormir como coelhinhos enroscados,
Tão frescos e ensolarados embora não sejam ainda amigos
Mas coisas à mão, essa carne pronta
Nenhum igual honesto, mas meu cúmplice agora
Meu futuro assassino, e o meu nome
Representa a minha parcela histórica de zelo
Por uma cidade autodidacta e mentirosa,
O medo da nossa tarefa de viver, a morte
Que o dia vindouro demandará.
1949
W. H. Auden | Selected Poems, New Version
Editado por Edward Mendelsen
Vintage Books, Random House, 1979.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa