II. Tércia
Após apertar as patas do seu cão,
(cujo latido diria ao mundo que ele é sempre gentil,)
O carrasco parte rapidamente sobre a charneca;
Ele ainda não sabe quem será providenciado
Para fazer as altas obras da Justiça:
Fechando suavemente a porta do quarto da sua esposa,
(hoje ela tem uma das suas dores de cabeça)
Com um suspiro, o juiz desce a sua escada de mármore;
Ele não sabe por que sentença
Aplicará na terra a Lei que governa as estrelas:
E o poeta, tomando fôlego
Em seu jardim antes de começar a sua écloga,
Não sabe de quem é a Verdade que contará.
Espíritos da lareira e do depósito, deuses
De mistérios profissionais, os Grandes
Quem podem aniquilar uma cidade,
Não podem se incomodados neste momento: somos deixados,
Cada um a seu secreto culto, agora cada um de nós
Reza para uma imagem da sua imagem de si mesmo:
"Deixa-me passar por esse dia que se aproxima
Sem uma severa reprimenda de um superior,
Sem ser derrotado com uma réplica,
Ou me comportar como um idiota na frente das raparigas;
Deixa que algo emocionante aconteça,
Deixa-me encontrar uma moeda da sorte numa calçada.
Deixa-me ouvir uma nova história divertida."
Nesta hora, todos podemos ser qualquer um:
É apenas a nossa vítima que está sem um desejo
Que já sabe (é isso que
Nós nunca podemos perdoar. Se ele sabe as respostas,
Então porque estamos aqui, porque até mesmo aqui há pó?)
Já sabe que, de facto, as nossas preces são ouvidas,
Que nenhum de nós vai escorregar,
Que a maquinaria do nosso mundo funcionará
Sem problemas, que hoje, pela primeira vez,
Não haverá querelas no Monte Olimpo,
Nenhum murmúrio ctónico de inquietação,
Mas nenhum outro milagre, sabe que ao pôr do sol
Teremos tido uma boa Sexta-Feira.
Outubro de 1953
W. H. Auden | Selected Poems, New Version
Editado por Edward Mendelsen
Vintage Books, Random House, 1979.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa