III. Sexta
1
Não necessitas de ver o que alguém está a fazer
para saber se é a sua vocação,
Necessitas apenas de observar os seus olhos:
um cozinheiro misturando um molho, um cirurgião
fazendo uma incisão primária,
um funcionário preenchendo um papel de embarque,
usam a mesma expressão arrebatada,
esquecendo-se de si mesmos numa função.
Como é belo,
esse olhar do olho no objeto.
Ignorar as apetitosas deusas,
abandonar os formidáveis santuários
de Reia, Afrodite, Deméter, Diana,
rezar em vez disso a Santa Focas,
Santa Bárbara, São Saturnino,
ou quem quer que seja o patrono de alguém,
para que ninguém possa ser digno de seu mistério,
que acção prodigiosa a ser dada.
Deveria haver monumentos, deveria haver odes,
aos heróis sem nome que a tomaram primeiro,
ao primeiro lascador de sílex
que esqueceu o seu jantar,
ao primeiro colecionador de conchas
a permanecer celibatário.
Onde estaríamos se não fossm eles?
Ainda selvagens, sem treino doméstico, ainda
vagando pelas florestas sem
uma consoante para os nossos nomes,
escravos da Generosa Senhora, sem
qualquer noção de uma cidade
e, neste meio-dia, para esta morte,
não haveria executores.
2
Não necessitas de ouvir as ordens que são dadas
para saber se alguém tem autoridade,
Necessitas apenas de observar a sua boca:
quando um general sitiante vê
um muro de cidade aberto pelas suas tropas,
quando um bacteriologista
percebe num piscar de olhos o que estava errado
com a sua hipótese quando,
de uma olhada no júri, o promotor
sabe que o réu será enforcado,
os seus lábios e as linhas ao redor deles
relaxam, assumindo uma expressão
não de simples prazer em conseguir
o seu próprio jeito doce, mas de satisfação
em estar certo, uma encarnação
de Fortitudo, Justicia, Nous.
Podes não gostar muito deles
(Quem gosta?) mas devemos-lhes
basílicas, divas,
dicionários, versos pastorais,
as cortesias da cidade:
sem estas bocas judiciais
(que pertencem em grande parte
a grandes canalhas)
quão sórdida seria a existência,
amarrada por toda a vida a alguma vila de cabanas,
com medo da cobra local
ou do demónio local do vau
falando o dialecto local
de umas trezentas palavras
(pensa nas querelas de família e nas
cartas anónimas, pensa na endogamia)
neste meio-dia, não haveria autoridade
para ordenar esta morte.
3
Em qualquer lugar de que gostares, em algum lugar
na Terra de peito largo e vivificante,
em qualquer lugar entre as suas terras sedentas
e o Oceano intragável,
a multidão permanece perfeitamente imóvel,
os seus olhos (que parecem um) e as suas bocas
(que parecem infinitamente muitas)
inexpressivas, perfeitamente vazias.
A multidão não vê (o que todos veem)
uma luta de boxe, um desastre de combóio,
um navio de guerra sendo lançado,
não se interroga (como todos se interrogam)
quem vencerá, que bandeira será hasteada,
quantos serão queimados vivos,
nunca se distrai
(como toda a gente está sempre distraída)
por causa de um cão latindo, um cheiro de peixe,
um mosquito numa cabeça careca:
a multidão vê apenas uma coisa
(que somente a multidão pode ver)
uma epifania daquilo
que faz o que quer que seja feito.
Qualquer deus em que uma pessoa acredita,
de qualquer maneira e que ela acredita
(nenhum dos dois é exactamente igual)
como o único da multidão em que acredita
e acredita apenas naquilo
em que há apenas uma maneira de acreditar.
Poucas pessoas se aceitam e a maioria
nunca correctamente fará nada,
mas a multidão não rejeita ninguém, juntar-se à multidão
é a única coisa que todos os homens podem fazer.
Somente por isso podemos dizer
todos os homens são nossos irmãos,
superiores, por isso,
aos exoesqueletos sociais: Quando
até mesmo ignoraram as suas rainhas,
pararam de trabalhar por um segundo.
em suas cidades provinciais, para adorar
O Príncipe deste mundo igual a nós,
neste meio-dia, nesta colina,
no momento desta morte.
Primavera de 1954
W. H. Auden | Selected Poems, New Version
Editado por Edward Mendelsen
Vintage Books, Random House, 1979.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa