IV. Nonas
- O que sabemos ser impossível,
- Embora repetidamente predito
- Por eremitas selvagens, por xamã e sibilas
- Balbuciando em seus transes,
- Ou revelado a uma criança em alguma rima casual
- Como desejar e matar, acontece
- Antes que percebamos: ficamos surpreendidos
- Com a facilidade e velocidade da nossa acção
- E inquietos: Ainda são três horas,
- Meio da tarde, mas o sangue
- Do nosso sacrifício já está
- Seco na relva; não estamos preparados
- Para um silêncio tão repentino e tão breve;
- O dia está muito quente, muito claro, muito calmo,
- Sempre, os mortos permanecem como nada.
- O que faremos até ao anoitecer?
-
- O vento afrouxoue perdemos o nosso público.
- Os muitos sem rosto que sempre
- Se juntam quando qualquer mundo está para ser destruído,
- Explodido, queimado, rachado,
- Derrubado, serrado em dois, cortado, dilacerado,
- Todos derreteram: nenhum
- Nenhum daqueles que à sombra dos muros e das árvores
- Jazem esparramado agora, dormindo calmamente,
- Inofensivos como ovelhas, pode lembrar por que
- Ele gritou ou o que
- Tão alto sob o sol esta manhã;
- Todos, se desafiados, responderiam
- - “Era um monstro com um olho vermelho,
- Uma multidão que o viu morrer, não eu.” -
- O carrasco foi lavar-se, os soldados comer;
- Ficamos sozinhos com nossa façanha.
-
- A Madonna com o pica-pau verde,
- A Madonna da figueira,
- A Madonna ao lado da represa amarela,
- Vira as suas caras gentis de nós
- E os nossos projestos em construção,
- Olhe apenas numa direcção,
- Fixam o olhar em nosso trabalho concluído:
- Bate-estacas, betoneira,
- Guindaste e picareta esperam para serem de novo usados,
- Mas como podemos repetir isso?
- Sobrevivendo ao nosso acto, permanecemos onde estamos,
- Tão desconsiderados quanto alguns
- Artefatos nossos descartados
- Como luvas rasgadas, chaleiras enferrujadas,
- Ramais abandonados, gastos desequilibrados
- Mós tortas e gastas enterradas em urtigas.
-
- Esta carne mutilada, nossa vítima,
- Explica muito abertamente, muito bem,
- O feitiço do jardim de espargos,
- O objectivo do nosso jogo de giz; selos,
- Os ovos dos pássaros não são os mesmos, por trás da maravilha
- De caminhos de reboque e pistas submersas,
- Por trás do êxtase na escada em espiral,
- Estaremos sempre agora conscientes
- Do feito a eles que conduzem, sob
- A perseguição e a captura simuladas,
- As competições, lutas e respingos,
- A respiração ofegante e o riso,
- Esteja ouvindo o choro e a quietude
- Para acompanhar de seguida : onde quer que
- O sol brilhe, os riachos correm, os livros são escritos,
- Aí também haverá esta morte.
-
- Logo a tramontana fresca vai agitar as folhas,
- As lojas reabrirão às quatro horas,
- A camioneta azul vazia na rosada praça vazia
- Enche-se e parte: temos tempo para
- Deturpar, desculpar, negar,
- Mitificar, usar este acontecimento
- Enquanto, debaixo de uma cama de hotel, na prisão,
- Em curvas erradas, o seu significado
- Espera por nossas vidas: mais cedo do que escolheríamos
- O pão derreterá, a água queimará,
- E a grande repressão começa, Abadom
- Montará a sua forca tripla
- Em nossos sete portões, o gordo Belial fará
- A nossas mulheres valsarem nuas; enquanto isso
- Seria melhor ir para casa, se tivermos uma casa,
- De qualquer forma, é bom descansar.
-
- Que nossas vontades sonhadoras possam parecer escapar
- Desta calma mortal, vaguear em vez disso
- No fio das facas, nos quadrados pretos e brancos,
- Através do musgo, baeta, veludo, tábuas,
- Sobre rachaduras e colinas, em labirintos
- De barbante e cones penitentes,
- Descendo rampas de granito e passagens húmidas,
- Através de portões que não se trancam
- E portas marcadas como Privadas, perseguidas por mouros
- E vigiado por ladrões latentes,
- Para aldeias hostis nos cabeços dos fiordes,
- Para castelos escuros onde o vento soluça
- Nos pinheiros e os telefones tocam,
- Convidando a problemas, para um quarto,
- Iluminado por uma lâmpada fraca, onde está o nosso Duplo
- Que escreve e não olha para cima.
-
- Que, enquanto estivermos assim afastados, a nossa carne injustiçada
- Possa funcionar sem ser perturbada, restaurando
- A ordem que tentamos destruir, o ritmo
- Que estragamos por despeito: válvulas fecham
- E e abrem-se de modo exacto, glândulas segragam,
- Vasos contraem e expandem-se
- No momento certo, fluidos essenciais
- Fluem para renovar células exaustas,
- Sem saber exatamente o que aconteceu, mas impressionados
- Pela morte como todas as criaturas
- Agora observando este local, como o falcão olhando para baixo
- Sem pestanejar, as galinhas presunçosas
- Passando por perto em sua hierarquia,
- O inseto cuja visão é impedida pela relva.
- Ou o cervo que de longe timidamente
- Espia pelas clareiras da floresta.
-
-
- Julho de 1950
W. H. Auden | Selected Poems, New Version
Editado por Edward Mendelsen
Vintage Books, Random House, 1979.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa