V. Vésperas

   Se a colina com vista para a nossa cidade foi sempre conhecida como o Túmulo de Adão, apenas ao

anoitecer podes ver o gigante reclinado, a sua cabeça virada para o oeste, o seu braço direito

descansando para sempre no quadril de Eva,


   podes aprender, pela maneira como olha para o par escandaloso, o que um cidadão realmente pensa

sobre a sua cidadania,


   assim como podes ouvir agora no miado de um bêbado os seus rebeldes lamentos clamando por uma

disciplina parental, em olhos lascivos percebendo uma alma desconsolada,


   examinando com desespero todos os membros que passavam em busca algum vestígio do seu anjo sem

rosto que nesse tempo em que desejar era uma ajuda nela montou uma vez e desapareceu:


   Pois o Sol e a Lua fornecem as suas máscaras conformes, mas nesta hora de crepúsculo civil todos

devem usar os seus próprios rostos.


   E é agora que os nossos dois caminhos se cruzam.


   Ambos reconhecem simultaneamente o seu Oposto: eu sou um Arcádio, ele é um Utópico.


   Ele nota, com desprezo, a minha barriga de Aquário: eu noto, com alarme, a sua boca de Escorpião.


   Ele gostaria de me ver limpando latrinas: eu gostaria de vê-lo removido para algum outro planeta.


   Nenhum dos dois fala. Que experiência poderíamos partilhar?


   Olhando para um abajur na vitrine de uma loja, observo que é demasiado horrível para qualquer um em

plena consciência comprar: ele observa que é caro demais para um camponês comprar.


   Ao passar por uma criança de bairro de lata com raquitismo, olho para o outro lado: ele olha para o

outro lado se passa por uma gordinha.


   Espero que os nossos senadores se comportem como santos, desde que não me reformem: Ele espera

que se comportem como barítonos cattivi, e, quando as luzes se acenderem tarde na Cidadela,


   Eu (que nunca vi o interior de uma esquadra de polícia) fico chocado e penso: "Se a cidade fosse tão

livre quanto dizem, depois do pôr do sol todos os seus escritórios seriam enormes pedras negras":


   Ele (que foi espancado várias vezes) não fica chocado, mas pensa: "Uma bela noite os nossos meninos

trabalharão lá em cima."


   Podes ver, então, porque, entre o meu Éden e sua Nova Jerusalém, nenhum tratado é negociável.


   No meu Éden, uma pessoa que não gosta de Bellini tem as boas maneiras de não nascer: Em sua Nova

Jerusalém, uma pessoa que não gosta de trabalhar ficará muito arrependida de ter nascido.


   No meu Éden, temos algumas locomotivas a vapor, locomotivas de tanque de sela, rodas d'água

ultrapassadas e outras belas peças de maquinaria obsoleta para brincar: em sua Nova Jerusalém, até

mesmo os chefes serão donos de máquinas frias como pepinos.


   No meu Éden, a nossa única fonte de notícias políticas é a bisbilhotice: em sua Nova Jerusalém, haverá

um diário especial com grafia simplificada para tipos não verbais.


   No meu Éden, cada um observa os seus rituais compulsivos e tabus supersticiosos, mas não temos

moral: em sua Nova Jerusalém, os templos estarão vazios, mas todos praticarão as virtudes racionais.


   Uma razão para o seu desprezo é que eu só tenho que fechar os meus olhos, atravessar a passarela de

ferro para o caminho de reboque, apanhar a barcaça pelo curto túnel de tijolos e


   lá estou eu no Éden novamente, recebido de volta por cromornos, peões duplicados, melancolias de

alegres mineiros e um enorme pêndulo da Catedral (românica) de Santa Sofia (Die Kalte):


   Uma razão para o meu alarme é que, quando ele fecha os olhos, ele entra, não em Nova Jerusalém, mas

em algum dia augusto de ultraje quando travessuras infantis saltitam por salas de estar em ruínas e

peixeiras intervêm na Câmara ou


   alguma noite de outono de exclusões e execuções por afogamento quando os ladrões impenitentes

(incluindo eu) são sequestrados e aqueles que ele odeia se odiarão a si mesmos.


   Então, com um olhar passageiro, assumimos a postura do outro; já, os nossos passos recuam, indo,

incorrigíveis cada um, em direcção ao seu tipo de refeição e noite.


   Foi (como deve parecer a qualquer deus das encruzilhadas) simplesmente uma intersecção fortuita de

caminhos de vida, leal a diferentes mentiras,


   ou também um encontro entre cúmplices que, apesar de si mesmos, não conseguem resistir a se

encontrar


   para lembrar ao outro (ambos, no fundo, desejam a verdade?) aquela metade do seu segredo que ele

mais gostaria de esquecer,


   forçando-nos, aos dois, por uma fracção de segundo, a lembrar a nossa vítima (mas para ele eu poderia

esquecer o sangue, mas para mim ele poderia esquecer a inocência)


   em cuja imolação (chame-o Abel, Remo, quem quiseres, é uma Oferenda pelo Pecado) arcádias,

utopias, a nossa querida e velha bolsa de democracia, igualmente fundadas:


   Pois sem um cimento de sangue (deve ser humano, deve ser inocente) nenhuma parede secular

permanecerá em segurança.


Junho de 1954




W. H. Auden | Selected Poems, New Version

Editado por Edward Mendelsen

Vintage Books, Random House, 1979.

Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa 


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