VI. Completas

Agora, como o desejo e as coisas desejadas

   Deixam de exigir atenção,

Como, aproveitando a oportunidade, o corpo escapa,

   Secção por secção, para se juntar

Às plantas em sua casta paz que é mais

   A seu gosto real, agora que um dia é o seu passado,

O seu último acto e sentimento, deve vir

   O instante da lembrança

Quando a coisa toda faz sentido: vem, mas tudo

   Que eu lembro são portas que batem,

Duas donas de casa a discutir, um velho comendo avidamente,

   Um olhar selvagem de inveja de uma criança,

Acções, palavras, que poderiam constar em qualquer conto,

   E eu não consigo ver nem o enredo

Nem o significado; não consigo lembrar

   Uma coisa entre o meio-dia e as três.


Nada está comigo agora, exceto um som,

   O ritmo de um coração, uma sensação de estrelas

Caminhando vagarosamente, e ambos

   Falam uma linguagem de movimento

Que posso medir, mas não ler: talvez

   O meu coração esteja a confessar a sua parte

No que aconteceu conosco do meio-dia às três,

   Que as constelações de facto

Cantam com alguma hilaridade além

   De todo o gosto e acontecimento,

Mas, sabendo que não sei o que eles sabem

   Nem o que eu deveria saber, desprezando

Todas as vãs fornicações da fantasia,

   Agora deixem-me, abençoando os dois

Pela doçura de suas degradações

   Aceitar a nossas separações.


Um passo a partir de agora me levará ao sonho,

   Deixar-me-à, sem um estatuto,

Entre as suas tribos sujas de desejos

   Que não têm danças nem piadas

Mas um culto mágico para propiciar

   O que acontece do meio-dia às três,

Ritos estranhos que escondem de mim – se arriscar,

   Dizer, sobre jovens num bosque de carvalhos

Insultando um veado branco, subornos nem ameaças

   Farão com que eles se chibem - e então

A mentira passada é um passo para o nada,

   Para o fim, para mim como para as cidades,

É a ausência total: o que vem a ser

   Deve voltar ao não-ser

Por causa da equidade, do ritmo

   Além da medida ou compreensão.


Podem poetas (podem homens na televisão)

   Ser salvos? Não é fácil

Acreditar em justiça incognoscível

   Ou rezar em nome de um amor

Cujo nome se esqueceu: libera

   Me, libera C (querido C)

E todos os pobres coitados que nunca

   Fazem correctamente nada, poupa-nos

No dia mais jovem quando todos estão

   Agitadamente acordados, factos são factos,

(E saberei exatamente o que aconteceu

   Hoje entre o meio-dia e as três)

Para que possamos também ir ao piquenique

   Sem nada a esconder, juntarmo-nos à dança

Enquanto se move em pericorese,

   Circulando à volta da perene árvore.


Primavera de 1954




W. H. Auden | Selected Poems, New Version

Editado por Edward Mendelsen

Vintage Books, Random House, 1979.

Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa  

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