Questões de Limite
Aqui em vida, eles compreenderiam.
Como poderia ser de outra forma? Nós também tacteámos,
imprudentes, até que a margem começou a ceder,
nessa altura tudo estava taciturno, ou perdido, ou ambos.
Agora era a altura e não havia nada a fazer.
Fizemos uma boa refeição, eu e o meu amigo,
sorvendo do balde de leite, apanhando legumes mais novos.
No entanto, a vida era um deserto. Regressa a casa, de boa fé.
Ainda podes decidir. Mas era calor o que queria.
Caso contrário, a astúcia e a subtileza tornar-se-iam impossíveis
nos poucos anos ou horas que nos restam. “Sim, mas...”
Os mendigos icónicos também foram embora. Disse-te,
uma vez que surge uma brecha, esta tornar-se-á um abismo
antes que alguém tenha a possibilidade de vacilar. Uma disputa
do outro lado da cidade irrompe numa guerra
em pouco tempo e termina abruptamente. A tendência para curar
varre tudo à sua frente, para o regato, o poço da mina,
para qualquer bolso que estejas a contemplar. E os verdadeiramente perdidos
compensam isso. Somos sempre nós que temos de pagar.
Tenho uma sugestão a fazer: prolonga a ferroada mordaz
da forma mais profunda que desejares. Reboca as janelas
com polpa de madeira contra a escuridão do meio-dia propondo os seus enigmas,
os seus elixires. Expulsa a verdade.
Esse é o ponto principal, pelo que percebi.
Cada nova investigação reconstrói a urgência,
como uma muralha de areia. E uma reflexão mais aprofundada prejudica-a,
provocando o seu eventual colapso. Pudemos ver tudo isso
à distância, como num ábaco curvo, em modo de urgência
desde o primeiro dia, mas nessa altura as decisões pouco importavam.
Foi a camaradagem, ou algo semelhante, que o fez,
debruçada sobre nós como se fôssemos papiros, na esperança de encontrar um
atitude correcta esboçada no ar iluminado a gás, a aquisição amigável da noite.
John Ashbery poems | Poemhunter.com
The World's Poetry Archive, 2012.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa