Janelas Gotejantes

Quando Eduard Raban, vindo pelo corredor, saíu pela

porta aberta, viu que chovia. Não chovia muito.

                        KAFKA, Preparativos para o Casamento no País


O conceito é interessante: ver, como que refletido

Em vidraças comunicantes, o olhar dos outros através

Dos seus próprios olhos. Um resumo das suas impressões correctas sobre

As suas atitudes auto-analíticas sobrepostas pelo teu

Rosto transparente e fantasmagórico. Tu, com os adornos

De alguma época distante, não muito distante, a cosmética,

Os sapatos perfeitamente pontiagudos, à deriva (há quanto tempo

Tens andado à deriva; quanto tempo também eu tenho)

Como um diabrete rumo a uma superfície que nunca poderá ser

          agarrada,

Nem perfurada a energia intemporal de um presente

Que teria as suas próprias opiniões sobre a matéria,

Um instantâneo epistemológico dos processos

Que mencionou o teu nome em primeira mão em algum cocktail lotado,

Numa festa em tempos idos, e alguém (não a pessoa a quem se dirige)

Ouviu e transportou esse nome na carteira

Durante anos, enquanto a carteira se rasgava e as notas entravam

e saíam. Quero muito ter hoje esta informação,


Não posso permiti-lo, e deixa-me zangado.

Usarei a minha raiva para construir uma ponte como a

De Avignon, onde as pessoas podem dançar pela sensação

De dançar numa ponte. Finalmente verei todo o meu rosto

Reflectido não na água, mas no desgastado chão de pedra da minha ponte.


Vou guardá-lo para mim.

Não repetirei os comentários dos outros sobre mim.




John Ashbery poems | Poemhunter.com 

The World's Poetry Archive, 2012.

Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa 

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