Um País Mundano
Nem a suavidade, nem os relógios insanos na praça,
o cheiro a estrume no canteiro municipal,
não os tecidos, a troça taciturna do Tweety Bird,
nem as novas tropas que precisavam de ser renovadas. Se isso ocorreu
em tempo real, estava tudo bem, e se fosse o tempo de um romance
tudo bem também. Do palácio ao casebre
o grande desfile inundou a avenida e o atalho
e os campos de nabos tornaram-se apenas mais uma estrada.
Os restos de bombons foram atiradas às galinhas
e aos gansos, que gritavam como os próprios idiotas.
Não havia sossego na casa de banho, nem no armário de porcelana
ou nos bancos, onde ninguém vinha fazer um depósito.
Em suma, o inferno começou nessa tarde.
À noite, tudo estava novamente calmo. Uma lua crescente
pairava no céu como um papagaio no seu poleiro.
Os convidados que partiam sorriam e gritavam: "Vejo-vos na igreja!".
Pois a noite, como sempre, sabia o que estava a fazer,
proporcionando sono para compensar a grande desordem
que o dia de amanhã de novo e certamente traria.
Ao olhar para os escombros silenciosos, uma coisa
intrigou-me: o que aconteceu e porquê?
Num minuto éramos rebeldes até ao pescoço,
e no seguinte, a paz subjugara as fileiras do inferno.
Acontece muitas vezes que o momento em que damos meia-volta
será em breve o banco de areia onde o nosso patético esquife encalhará.
E tal como as ondas estão ancoradas no fundo do mar
devemos alcançar os baixios antes que Deus nos liberte.
John Ashbery poems | Poemhunter.com
The World's Poetry Archive, 2012.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa