Ganhando a Vida
Jonas ganhava a vida
dentro da barriga.
A minha vem exatamente do mesmo lugar.
Jonas abriu a porta da sua cabine
e disse: "Aqui estou!" e a baleia gostou disso
e pensou em acolhê-lo.
Na boca Jonas gritou.
No estômago foi humilhado.
Não batia nas paredes.
Nem chupou o dedo.
Inclinou a cabeça com atenção
como um réu no seu próprio julgamento.
Jonas roubou a carteira do pai
e tentou contar o dinheiro
e foi tudo abafado.
Jonas tirou a fotografia da mãe
e tentou beijar os olhos
e foi tudo abafado.
Jonas tirou o casaco e as calças,
a gravata, a corrente de relógio, os botões de punho
e desistiu deles.
Sentou-se como um banhista antiquado
em camisa interior e cuecas.
Esta é a minha morte,
Jonas disse em voz alta:
e será proveitoso para mim entendê-lo.
Vou anotar mentalmente cada detalhe.
Pequenos peixes nadaram junto ao nariz,
sentiu e tocou a sua pequenez.
O plancto veio e segurou-os na mão
como lâmpadas mínimas de Deus.
Todo o passado estava aí consigo
e devorou-o.
Nesse momento a baleia
vomitou-o de regresso ao mar.
O céu azul gritante.
Os escandalosos barcos brancos.
O sol como um globo ocular endoidecido.
Então contou aos mídia
os estranhos detalhes da sua morte
e levaram-no para a praça do mercado
que o vendeu, vendeu e vendeu.
A minha morte é o mesmo.
The Complete Poems | Anne Sexton
Prefácio de Maxine Kumin
Houghton Mifflin Company Boston, 1981.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa