Fora-da-Lei

 Corujas: zurram pela noite,

Morcegos passam em ziguezague.

Emboscados nas sombras, fora da vista

Jazem os fora-da-Lei.


Deuses antigos, reduzidos a sombras, ali

Nas matas húmidas espreitam,

Ávidos de coisas humanas para aprisionar

Em teias de escuridão.


Olha para cima, ou os teus olhos se afogarão

Num mar negro em movimento

Entre as copas das árvores, de cabeça para baixo

Segue o trilho celeste.


Olha para cima, ou os teus pés se desviarão

Em direcção a essa emboscada sombria,

Onde as aranhas capturam as suas presas

Em redes de sombra.


Pois embora os credos se dissipem em pó,

A fé falhe e os homens se esqueçam,

Esses deuses ancestrais do medo e da luxúria

Ainda se agarram à vida.


Deuses antigos, quase mortos, malignos,

Famintos dos seus antigos tributos,

Incenso e frutos, fogo, sangue e vinho

E uma impura musa.


Banidos para bosques e lua doentia,

Reduzidos a meros papões,

Que falavam a prostrados reis

Com trovões ao meio-dia.


Com trovões vindos de um céu aberto

Para o camponês, o tirano, o sacerdote,

Curvando-se de medo e olhar deslumbrado

Em direcção ao Oriente.


Deuses orgulhosos, humilhados, rebaixados,

Vivendo com fantasmas e demónios,

E fantasmas de fantasmas e a neve do ano passado

E cogumelos mortos.




Robert Graves in Collected Poems 1959, Cassel & Company Ltd, 1959.

Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa

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