O Tiro
O coração curioso brinca com os seus medos
Ao lançar um tiro através das tábuas do navio,
Certo de que a torrente verde e furiosa
Está encantada e não se atreve a dançar para dentro do porão -
Nem antes lançar um olhar demorado em redor
Procurando terra, um banco de areia ou um barril à deriva
“Assim, os milagres acontecem, mas os loucos afogam-se”
Ó luxo fatigante de hipóteses -
A natureza humana, a honesta natureza humana
(A que o coração mimado pelo medo nega)
Conhecendo o próprio milagre de não enlouquecer
Dará o tiro para a fantasia, insinuará o facto,
Fará talvez um pequeno furo com a broca
Mas estancará o jorro com um pano embebido em alcatrão,
E não se afogará, nem sequer cavalgará o barril
Robert Graves, Collected Poems 1959, Cassel & Company Ltd, 1959.
Versão Portuguesa de © Luísa Vinuesa