Poema da Noite

1


Passo a mão sobre

Declives, quedas, manchas de visão,

Pestanas quase inaudíveis,

Lábios que cedem tão facilmente

Que é um choque sentir por baixo deles

o sorriso dos ossos.

Um pouco abafados, mal cobertos,

Zigoma, maxilar, corneto.



2


Coloco a minha mão

Na lateral do teu rosto,

Inclinas um pouco a cabeça

na minha mão - e assim,

Sei que és um rado dorminhoco

envolvido pelo sono de inverno,

Um solitário, atordoado peso.



3


Uma maçã do rosto

Uma sobrancelha arqueada,

Uma pálpebra pálida

flutuam na escuridão,

E agora distingo

Um olho, escuro,

Envolto em distantes luzes inexplicáveis.



4


Quase sem tocar, seguro

O que só posso descrever

Como algumas das memórias mais profundas nos meus braços,

Não minhas, mas como se a vida em mim

Estivesse lentamente a recordar o que é.

Jazes aqui e agora na tua fisicalidade,

Neste belo grau de realidade.



5


E agora chega o dia, a jangada que se despedaça.

Penso em alguns ossos

A flutuar num rio à noite,

A luz das estrelas a soprar num ponto da água,

O rio a inclinar-se como uma onda em direcção ao vazio.



Galway Kinnell, Poems, Poemhunter, The World's Poetry Archive, 2012.

Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa

Outros poemas

Memorando

Por Minha Própria Conta

Além de um tempo belicoso, trovejando

O Gueto

Dinosauria, Nós

Barba Azul

Insónia

Num Poema

Acordado, deitei-me nos braços do meu calor e ouvi