Em Chamas
Vive, aquele que na noite passada caiu de um tronco
Para um riacho, e toda a noite, preso por um tornozelo,
Ficou submerso na corrente, morto por uma unha negra
Não fosse ter sido segurado pelos dentes do seu cão.
Trouxe-lhe ovos cozidos e caldo.
Tossiu e acenou com a colher
Sentando-se e dizendo que jantaria sozinho,
Estando ele próprio exausto depois desse banho.
Sentei-me lá fora, ao sol, com o cão.
Usando uma meia no pé dorido,
Apoiado em enormes muletas, saiu a coxear
E dirigiu-se ao cão com uma raiva amarga.
Disse ao cão amarelo, o seu salvador:
Que o seu coração era fraco, e que não deveria
Deambular perto do riacho à noite;
Se todos os seus cães se afogassem, ficaria pobre.
Acariciou a cabeça e desapareceu no barracão,
Saíu com um martelo de pedra nas mãos
E erguendo o peso rochoso de muitos quilos,
deixou-o cair sobre a cabeça do cão.
Carreguei a carcaça, cavei fundo.
Saíu então com o que seria um trangalho pesado,
E derramando sobre a campa a sua caneca de trovão,
Despejou-a até ao fim e entrou para dormir.
Vi-o através do vidro e não dormia, olhando
Com olhos arregalados o pôr do sol, depois o brilho
Cegou o vidro - apenas um quadrado vermelho,
Uma casa em chamas a arder no meio do nada.
Galway Kinnell, Poems, Poemhunter, The World's Poetry Archive, 2012.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa